Lovecraft: “um cético materialista”
Julho 31, 2009
Andei lendo um livro de contos do Lovecraft que editamos na Hedra (www.hedra.com.br). Tem em apêndice uma carta muito interessante como documento da imaginação de um artista. É uma carta autobiográfica ou autobibliográfica na qual há declarações impagáveis como “não vejo razão que justifique crenças em qualquer forma de mundo espiritual ou sobrenatural” (p. 142) ou “Creio que esse tipo de coisa fascina-me ainda mais porque não lhe dou o menor crédito!” (idem). Fiquei impressionado com a clareza com que Lovecraft distingue vida cotidiana e imaginação fantástica. Coisas que não confunde nunca.
Mais adiante ele diz “Tenho uma agenda onde anoto ideias estranhas e enredos rudimentares para uso posterior, e também um arquivo de notícias estranhas de jornal que uso como possível fonte de inspiração” (p. 148). Todos sabem que o elemento moderador do fantástico literário é o estranho e o dúbio, o inumano, o mais-ou-menos-que-humano, o semi-humano, o pós-humano.
Daí eu me deparei, na revista Istoé de 13 de maio de 2009, com a seguinte notícia:

Lendo Outra vida, novo livro de Rodrigo Lacerda – 2
Julho 10, 2009
O segundo capítulo interrompe a narrativa da espera na rodoviária e retrocede cerca de cinco anos para narrar o parto. O foco está no marido e em sua inadaptação àquela situação tensa e cheia de exigências que ele teria de cumprir sentindo-se despreparado. No correr dos minutos até o parto da filha, o narrador vai colorindo a situação através da explicitação do vínculo entre o marido e cada um dos três outros personagens, a mãe dele e o pai e a mãe dela. A caracterização se completa. Há um desnível de origem social e cultura entre os dois com desvantagem para ele. Ela reage mal à gravidez e ao advento da menina. Ele ansiosa, acolhedora e desajeitadamente. Também ocorre a exposição de um segredo de leito: ele acha que no ímpeto da cópula teria intencionalmente rompido o preservativo para produzir um vínculo duradouro com ela. Também se revela que o marido se envolveu em um ato de corrupção e por isso perdeu o emprego e resolveu se mudar.
O terceiro capítulo retoma a narrativa no momento da espera do ônibus e cria uma expectativa de estruturação dos capítulos em presente e passado. O desdobramento temático responde a uma pergunta deixada no primeiro capítulo: o que estaria ameaçando e deixando tão ansiosa a esposa? É que ela tem um amante, que ficou obsessivo desde que ela disse que se mudaria com a família. Há a possibilidade de ele chegar à rodoviária e haver um conflito direto. O foco está na esposa. Ela é uma herdeira de uma grande família em sua cidade natal; aparentemente herdou só o nome e a empafia, porque a família é presentemente empobrecida. Ela tem quase trinta anos e a união dos dois ressoa os desníveis de classe: “Fazia tempo, seus momentos [do marido] de felicidade conjugal entremeavam-se às prestações da dívida que tinha para com a mulher, como compensação por tê-la a seu lado e pela filha que lhe dera.” Ela abastece-se também da admiração e do sentimento de inferioridade do marido, que a considera melhor do que ela própria se sente.
Lendo Outra vida, novo livro de Rodrigo Lacerda – 1
Julho 1, 2009
O livro começa com um foco bastante descritivo, estático e aproximado. Mostra um homem, o marido, em um balcão de lanchonete de uma rodoviária, comendo um sanduíche, que logo parecerá uma forma grotesca, e destaca seu tamanho avantajado. O andamento parece lento por causa da descrição minuciosa: “Ao cravar os dentes [...] faz o molho brotar [...] amolecendo o guardanapo de papel e caindo [...]“. Em seguida o foco cai sobre a esposa, acentuando seu incômodo com o lugar, que acha sujo, à diferença do marido, que está à vontade. O terceiro elemento da composição é a filha de cinco anos, incomodada pelo sono. Em seguida um parágrafo com foco mais distanciado e a totalização das descrições numa imagem: “Para quem os vê, todos de costas, [...] compõe uma escadinha íngreme, que termina com a criança”. Está amanhecendo e a família espera um ônibus e está se mudando de cidade. O foco se aproxima novamente e o marido pede mais guardanapo ao garçon; em seguida percebe que deixou respingar catchup na camisa mas, antes mesmo de perceber, já tinha recebido o olhar reprovatório da esposa. Em seguida a filha tenta encostar-se ao balcão e é advertida pela mãe, que sai para tomar alguma providência, para não ficar “esperando pelo pior”. Não sabemos ainda o que é este pior. A menina encosta-se ao pai e faz menção de adormecer, mas antes vai buscar uma boneca na mala. Nesse momento o narrador aproxima seu registro do olhar do pai e reproduz a afetividade intensa com que ele observa cada pequeno detalhe de seus movimentos e de sua figura. Aqui parece haver algo de desarmonioso com a caracterização do homem que, há pouco, abocanhava o sanduíche. O homem olha em direção à tv e o foco passa para ela e se distancia, agora muito, da cena. Os próximos parágrafos enumeram as notícias corriqueiras – guerras, corrupção, ecologistas apocalípticos, violência, miséria e falência social. É o momento em que o narrador aparece, quase destacado da cena, interpretando e criticando uma realidade que, se é verdade que emoldura a cena, é uma moldura muito distante. Quem vê e presta atenção à tv é o narrador, não a personagem, que está fazendo hora, combalido pelo sono da noite interrompida e do estômago cheio. (Mas pode ser que mais adiante o noticiário ganhe outros sentidos.) A esposa volta, mostrando impaciência, e o marido pede que se acalme. Daí ocorre a cena que encerra o capítulo. A esposa avista uma mãe negra e pobre amamentando seu filho – o registro nesse momento se torna extremamente lírico fazendo avultar os menores índices do amor trocado ali. A esposa fica absorvida pela cena. Tem sentimentos contraditórios e revela-se que houve algum tipo de afastamento entre ela e sua filha. Este afastamento foi motivado pelas circunstâncias e o sinal traumático que deixou continua a existir. Para onde será que eles vão e por quê? De onde estão partindo? Qual terá sido a circunstância que afastou mãe e filha e qual a responsabilidade do marido nisso? O que causa o temor da esposa enquanto esperam? Parece ser uma história que começa pelo fim, pelo ponto de chegada e que vai ser reconstituída até ali, embora o destino das personagens não seja, é claro, a rodoviária, e este cenário patenteie muito mais o transitório do que o definitivo. Vamos ver.
O mez da grippe
Dezembro 13, 2008
O mez da grippe, novella de Valêncio Xavier, Curitiba, Fundação Cultural, Casa Romário Martins, 1981
Morreu aos 75 anos no dia 5 último o escritor paulistano-curitibano Valêncio Xavier. Ele construiu uma narrativa particularmente marcada pela cooperação entre texto, no sentido estrito, e imagem. Homem da tv e do cinema, publicou seu primeiro livro, este O mez da grippe, aos 48 anos. Achei o livrinho em um sebo em Pinheiros há dez anos. É uma pérola. Uma brochura despretensiosa, com cara de fanzine, pb. Ele é um desses casos de escritores que têm sucesso de crítica antes de ter não o sucesso de público, mas o próprio público. Já era comentado por gente como Décio Pignatari e Flora Sussekind antes de ter uma edição expressiva de seus textos e talvez tenha sido editado, pela Companhia das Letras, por causa desses comentadores notáveis. Mais do que a concorrência da imagem, me chama a atenção em O mez da grippe a concorrência dos discursos, inseridos na narrativa em sua forma gráfica peculiar, um cartão postal, um bilhete, uma notícia de jornal, um classificado. Um tipo de narrativa-colagem das mais instigantes. Um caso interessante e não panfletário do experimentalismo literário.
Os últimos dias de paupéria
Novembro 30, 2008
Torquato Neto, Os últimos dias de paupéria, Rio de Janeiro, Eldorado, 1973
Achei o livro do Torquato num sebo no Largo 7 de setembro. Não como item raro, como livro zoado. É a primeira edição e vem com um compacto. No lado A, Gilberto Gil canta “Todo dia é dia d”; no B, Gal Costa, “Três da madrugada”. Nunca ouvi. Quem organizou foi o Wali Salomão. Duas vezes deixei de comprar a segunda edição, da Max Limonad. Uma delas, numa banca de usados na USP, com o dinheiro no bolso, indeciso, veio um cara, pegou e levou.
Nunca consegui ler mesmo o Torquato, cujos textos foram reeditados pela terceira vez há uns três, quatro anos. O livro é uma espécie de baú, com muita coisa que não faz muito sentido para mim. Torquato foi um poeta de ondas curtas, um cara que pensava o que estava acontecendo, ali, em cima da hora. Tenho a impressão. Tanto que não publicou. Deve ter deixado tudo assim solto. Saiu avoado, como se dizia em São Paulo tempos atrás. Torquato é um dos caras que sempre me ocorrem quando penso nessa geração efêmera que inclui também Ana Cristina César, Paulo Leminski e Cacaso. Nunca vi os filmes que ele fez.
O infinito, de Leopardi
Setembro 15, 2008
“O infinito”, Leopardi
Sempre caro me foi este ermo vale,
E esta sebe, que de toda parte
Do último horizonte o olhar exclui.
Mas, sentado a vislumbrar, o interminado
Espaço, de lá de longe, e o sobre-humano
Silêncio, e a profundíssima quietude
Eu no pensar me finjo, e por bem pouco
O coração não se apavora. E como o vento
Ouço farfalhar nas folhas, eu aquele
Infinito silêncio a esse cicio
Vou comparando: e me sobrevém o eterno,
E as mortas estações, e a presente
E viva, com seus sons. Assim, nessa
Imensidão se afoga meu pensamento:
E naufragar-me é doce nesse mar.
[15.set.2008]
Polonaises
Agosto 28, 2008
polonaises, p leminski, curitiba, 80 (edição do autor)
Achei o livrinho de Leminski em um sebo, e foi um prazer. Já pelo caráter amador do livro, entretanto bem impresso (Leminski trabalhou com publicidade, e devia ter boa circulação entre o pessoal dos trabalhos gráficos). O livro é dedicado a Bóris Schnaiderman e traz como epígrafe o trecho de um poema do poeta polonês Mickiewicz traduzido por Leminski (o mesmo que aparece manuscrito na capa):
“Choveram-me lágrimas limpas, ininterruptas,
Na minha infância campestre, celeste,
Na mocidade de alturas e loucuras,
Na minha idade adulta, idade de desdita;
Choveram-me lágrimas limpas, ininterruptas…”
Tem um poema que eu adoro:
“um poema
que não se entenda
é digno de nota
a dignidade suprema
de um navio
perdendo a rota”
Tem aquele outro, “um dia, a gente ia ser homero…”. Na última página, há uma foto de Leminski (ao fundo, uma parede com cartazes políticos) fumando um baseado (ou fingindo fazê-lo), de bigodões, numa atitude bem contracultura.
Gracián, Agudeza, VII
Agosto 2, 2008
Discurso VII
Da agudeza por ponderação de dificuldade
A verdade, quanto mais dificultosa, é mais agradável, e o conhecimento que custa é mais estimado. São notícias pleiteadas que se conseguem com mais curiosidade e que se logram com mais fruição que as pacíficas. Aqui funda seus vencimentos o discurso e seus troféus o engenho.
Aumenta esta espécie de agudeza o artifício da ponderação misteriosa, a dificuldade entre a conexão dos extremos, digo, dos termos correlatos, e depois de bem exprimida a dificuldade ou discordância entre eles, dá-se uma razão que a desempenhe. Seja exemplo aquele imortal conceito de Virgílio: Estava Roma em meio de seu regozijos cesáreos, quando se lhes fez água a sorte; chorou melancólica a noite, que sempre pesar causou o abandono do prazer; voltou a amanhecer risonho o dia, madrugou o sol sereníssimo às augustas festas. Colheu o poeta a diversidade de tempos, ponderou a oposição do claro dia com a chuvosa noite e glosou-a neste dístico, dizendo que Júpiter e César dividiam o mando:
Nocte pluit tota; redeunt spectacula mane
Divisum Imperium, cum Jove Caesar habet.
Preliminares de uma discussão, por iuri pereira
Agosto 1, 2008
PRELIMINARES DE UMA DISCUSSÃO
Iuri Pereira
Que a poesia possa abrir mão de ser lida e que o poema deva ignorar orgulhosamente o leitor são postulados falsos, mas isso na medida em que, anteriores a ele, é justamente o papel do poema preparar, dar à luz aquele que o deve ler, obrigá-lo a ser esse, a partir desse composto, ainda meio cego, meio balbuciante, que é o leitor engajado nas relações habituais ou formado pela leitura de outras obras poéticas.
Maurice Blanchot
A descrição do presente feita por aqueles que participam dos combates atuais será sempre incompleta, talvez falsa, de qualquer modo unilateral.
Maiakovski
O conjunto de idéias e proposições que ocasionaram e foram ocasionadas pelo modernismo brasileiro permanece atuando, repassado por questões surgidas ao correr dos anos, na poesia que se escreve atualmente no Brasil. A vanguarda concreta, o desbunde setentista, o rigorismo precário dos anos 1980 ou o museu de tudo posterior com seu retorno à discursividade mais ampla e uma nova encenação da subjetividade, partem de matrizes criativas que remontam, com acréscimos, ao modernismo1. Talvez pareça ocioso notar o que para muitos é óbvio, mas dizê-lo impede-nos de pronto de tentar descrever um programa poético emancipado das matrizes modernistas em outros momentos da poesia brasileira do século XX, como o concretismo ou a poesia marginal. A poesia contemporânea situa-se amplamente em diretrizes propugnadas pelo modernismo, como o abandono das formas fixas e a instituição do verso livre, a dessacralização do repertório temático, que passa a incluir a referência rasteira e cotidiana e os registros irônicos, satíricos e humorísticos, a busca de uma expressão literária capaz de assimilar a cor brasileira de nossa fala, que passa, por assim dizer, a ser ouvida pelos poetas. Pode-se pensar ainda em uma busca constante que almeja equiparar os recursos técnicos e discursivos da poesia brasileira ao nível de excelência daquela praticada nos principais centros de irradiação cultural. Hoje essa busca parece muito esvaziada, seja pela ausência de movimentos aglutinadores também nos países europeus e americanos, seja porque engolimos a idéia de um mundo em que as distâncias foram gradualmente atenuadas pela velocidade da comunicação, rapidez que não garante, entretanto, a imediata assimilação do que se escreve na Europa ou nas Américas. No que se refere à manutenção da informação poética em dia por meio da militância na polêmica, na tradução, no jornalismo literário e no ensaísmo estamos muito aquém daquilo que produziu a vanguarda concretista.
A exposição afetiva no Lampadário de cristal, de Jerônimo Baía
Iuri Pereira
Intróito
Neste texto vou tratar da preponderância de figuras da evidência na exposição das guerras portuguesas da Restauração no poema Lampadário de cristal, de Jerônimo Baía, em comparação à exposição das mesmas guerras realizada pelo 3o conde de Castanheira, dom Luis de Meneses (1632-1690) em seu História de Portugal restaurado (impresso em duas partes em 1679 e 1698).
Lampadário de cristal
O Lampadário de cristal é um poema célebre da escola que a crítica convencionou chamar de gongórica. Portanto são poemas produzidos por emulação com a poesia de Gôngora (1561-1627), cujo sentido literal raramente se oferece na epiderme do texto, tornando sua leitura uma operação de exegese. O poema louva o casal real, o príncipe dom Pedro e sua esposa, a rainha dona Maria Francisca Isabel de Sabóia, tomando como motivo imediato um presente oferecido ao casal pelos duques de Sabóia, a saber, um lampadário, um lustre de cristal. O lampadário opera a passagem entre as partes do poema, funcionando como um amplo refrão versificatório e temático. O poema é composto de 1279 versos de seis e dez sílabas e 58 estrofes irregulares. É possível dividi-lo em quatro seções definidas por uma razoável regularidade no tratamento de certos temas — ou, melhor seria dizer, subtemas — de uma grande cena que é a monarquia portuguesa restaurada. A primeira seção é dedicada ao encarecimento do lampadário, a segunda do príncipe dom Pedro, a terceira do marquês de Marialva, como epítome do valor guerreiro lusitano e de seu sucesso na restauração do mando português, e a quarta à rainha dona Maria.


