errata

23 jun
Errata de Francisco Otaviano, org. Xavier Pinheiro. Rio de Janeiro: Edição da Revista de Língua Portuguesa, 1926

As bacantes, Eurípides

18 jun

Eurípides, As bacantes, trad. Eudoro de Sousa (São Paulo: Hedra, 2010).


O surgimento da tragédia no século v a.C. na Grécia é um evento inacreditável de formulação de formas artísticas, religiosas e civis. Foi inventada ali uma forma de representação letrada sem precedentes. Em primeiro lugar pela incorporação de uma personagem mítica por um cidadão, um ator, que assume a ação trágica, encarnando, por assim dizer, o mito. A explicação remete a origem da prática teatral a representações efetuadas durante a celebração religiosa, o que não diminui a surpresa da espantosíssima invenção. Depois pela precisão, economia, concentração com as quais os tragediógrafos agenciam os elementos do mito, surpreendendo-o no momento mais intenso, exemplarmente no Édipo rei, de Sófocles, obra de arte perfeita, infinita e incompreensível. As tragédias eram representadas durante as festas de celebração civis, eram assistidas, consta, por todo o conjunto de cidadãos, e desempenhava um papel na moderação dos afetos particulares, por meio da catarse trágica; catarse é uma descarga afetiva, uma emoção fortíssima com repercussões identitárias, isto é, uma catarse produz um novo conhecimento do mundo e de si. Para alguns autores a tragédia representa também a “vontade de autodeterminação do homem”, um homem que se vê diante de uma escolha sem escolha, pois todo caminho leva a algum tipo de punição. Exemplarmente, Antígona, também de Sófocles. Dentre as peculiaridades que tornam o universo trágico sensacional, conte-se o fato de restarem para nós apenas três autores, Ésquilo, Sófocles e Eurípides, e 28 tragédias completas. Dentre os temas mais comuns estão a desmedida e o descaso com o culto aos deuses, ambos terminando em punição corretiva de gestos excessivos. A tragédia é também uma forma que combina os dois subgêneros preexistentes da poesia, a épica e a lírica. Deveria falar do coro, que fala “em lírica” e é muito variado, mas vale dizer que frequentemente é um comentador coletivo da ação trágica que se situa a meia distância desta ação, mas que sofre os efeitos emocionais dela. Lembro como exemplo de coro invencível, o de Medeia, tragédia máxima, obra de arte perfeita. Há uma cena em que Medeia conversa com as amas que formam o coro, o primeiro momento em que ela reconhece sua condição desgraçada. Medeia é a extraordinária princesa da Cólquida, neta de Apolo, conquistada e traída. No filme de Pasolini a cena ficou magistral, com Maria Callas-Medeia. E Medeia é de Eurípides, autor de As bacantes.

Baco e o Vesúvio -- 140 x 101, Pompeia, Casa do Centenário, antes de 79 d.C. (Le colezione del Museo Nazionale di Napoli. Milano: De Luca Eidzione D´Arte)

As bacantes — ver em http://bit.ly/kSxlWD — é repleta de coisas maiores, mas dentre elas cabe falar de início da presença ostensiva em cena de um deus, Dioniso, o deus trácio, deus novo e oriental, gestado na coxa de Zeus. A ação se passa em Tebas sob o reinado de Penteu, que desdenha a origem divina de Dioniso, infamando ao deus e também à sua mãe, Sêmele. Dioniso vai a Tebas reparar a ausência de seu culto ali. Dentre as cenas estarrecedoras está aquela em que Tirésias e Cadmo, avô de Penteu, envergam os paramentos do culto báquico — uma coroa de hera e um tirso, espécie de bastão enfeitado –, numa aceitação submissa ao culto novo do deus poderoso. É uma cena ridícula, mas não provoca nenhum riso, mas sim respeito pela grandeza da submissão de um velho, como Crisis no começo da Odisseia e Príamo no final da Ilíada. Como se sabe os dois homens são velhos, e devem encarnar a moderação que vem da experiência, tornando a dupla de velhinhos bacantes uma coisa muito notável. E Penteu, que é o rei mais louco das tragédias que conheço, pois desfila pela cidade vestido de mulher para ser a principal vítima do transe dionisíaco. A cena da destruição do palácio é uma das mais comentadas pelos críticos, bem como a cena em que Ágave, mãe de Penteu, percebe, ou seja, reconhece sua desgraça. Como diz Eudoro de Sousa, o melhor meio de compreender a tragédia é enfrentar o texto. Naturalmente, por ser uma forma muito complexa, leituras de apoio são também necessárias e até indispensáveis. Creio que Eudoro quisera dizer que lendo o texto somos lançados neste universo de personagens, escolhas, oposições, afetos e gestos e somos compelidos, ao encontrar toda a sua beleza, a compreender um pouco deste mundo tão antigo e que continua capaz de nos lançar nos limites mais extremos da realização humana.

Pássaros/Ucelli, Mario Luzi

26 mai

PÁSSAROS

O vento é uma voz severa que adverte
a todos que há, em torno, a paz
e o alívio, naqueles ramos secos.
E a fila inteira retoma o triste voo,
migra no coração do monte, violeta
escavada em violeta inexaurível,
fonte sem fundo do espaço.
O voo é lento, penetra a fadiga
no azul em outro azul se abrindo,
no tempo além do tempo; alguns
dão gritos agudos que evolam
e nenhuma parede repele.
Eles parecem mover os cumes
– quase nem dá pra pensar
ou dizer – quando suas estrelas invisíveis
ao redor de uma estranha primavera
florescem em nuvens raras que o vento
conduz num céu úmido ou cinzento
e como correrá o dia não se sabe
o granizo, a chuva, o estio.

UCCELI

Il vento è un’aspra voce che ammonisce
per noi stuolo che a volte trova pace
e asilo sopra questi rami secchi.
E la schiera ripiglia il triste volo,
migra nel cuore dei monti, viola
scavato nel viola inesauribile,
miniera senza fondo dello spazio.
Il volo è lento, penetra a fatica
nell’azzurro che s’apre oltre l’azzurro,
nel tempo ch’è di là dal tempo; alcuni
mandano grida acute che precipitano
e nessuna parete ripercuote.
Che ci somiglia è il moto delle cime
nell’ora – quasi non si può pensare
né dire – quando su steli invisibili
tutt’intorno una primavera strana
fiorisce in nuvole rade che il vento
pasce in un cielo o umido o bruciato
e la sorte della giornata è varia,
la grandine, la pioggia, la schiarita.

Clássicos em quadrinhos

9 abr

Comprei uma vez 33 volumes desta coleção americana de clássicos literários em quadrinhos. O formato é 10,5×17 e o miolo é pb de 64 páginas. Comprei para um eventual uso pedagógico porque dá para pensar atividades de sala de aula interessantes com os livrinhos. As capas são muito bonitas, lembram um pouco cartazes de cinema. Abaixo reproduzo quatro delas. São publicações de 1984. O Rogério de Campos disse-me uma vez que seria trabalho de desenhistas italianos.



A palavra cerzida

25 set
Cacaso, A palavra cerzida, Rio de Janeiro, José Álvaro Editor, 1967

Publicado em 1967, A palavra cerzida foi o primeiro livro de Cacaso, um dos principais poetas da geração mimeógrafo, de ideário contracultural, alternativo, independente. Curiosamente, em se tratando de movimento que propunha a autoedição, foi publicado por José Álvaro Editor, cuja história ignoro, mas sei que publicou, por exemplo, a Clarice Lispector. Os livros seguintes de Cacaso é que viriam a sair pelos selos editoriais grupais e independentes, como as coleções Frenesi e Vida de artista. Mais tarde teve o volume da Brasiliense, Beijo na boca e outros poemas, de 1985, dois anos antes de sua morte. Leiam um poema do Cacaso, de matiz lírico e bandeiriano, não por acaso com epígrafe de Cecília Meireles:

Madrigal para um amor

A maior pena que eu tenho,
punhal de prata
não é de me ver morrendo
mas de saber quem me mata
.”
Cecília Meireles

Luz da Noite Lis da Noite
meu destino é te adorar

Serei cavalo marinho
quando a lua semi fátua
emergir de meu canteiro
e tu tivesses saído
em meus trajes de luar.

Serei concha privativa,
turmalina, carruagem,
Mas só se tu, Luz da Noite,
teu delírio nesta margem
já quiseres desaguar.

(Não te faças tão ingrata
meu bem! Quedo ferido
e meus olhos são cantatas
que suplicam não me mates
em adunco anzol de prata!)

E quanto nós nos amamos
em nossa vítrea viagem
de geada e de serragem
pelo meio continente!

Luz da Noite Lis da Noite
meu destino é te seguir.

Meu inábil clavicórdio
soluça pela raiz,
e já pareces tão farta
que nem sequer onde filtra
meu lado bom te conduz:
Minha amiga vou fremindo
embebido em tua luz.

Rio, 1964

Ensino de literatura: proposição 1: gratuidade da leitura x utilidade social da leitura

30 mar

É preciso operar o sentido da gratuidade da leitura literária ao lado do sentido de uma utilidade difusa, que não se pode converter imediatamente em moeda, mas que, entretanto, é uma das competências mais indispensáveis para se operar uma trajetória social direcionada àquilo que se tenha planejado para si, o que quer que seja.

Essa competência é a do próprio trato social em um sentido amplo, que exige a imaginação organizada que preside a criação e a fruição de um mundo narrativo, bem como de um mundo fatual; a leitura, isto é, a análise rápida das situações, dos tipos humanos e dos desejos e poderes em jogo em cada tabuleiro social, seja a família paterno-materna, seja a família instituída pelo casamento e procriação, seja o campo profissional, do trabalho, das ordens e subordinações, seja o trato da amizade.

Ao mesmo tempo em que a leitura deve ser cultivada como atividade gratuita, deve-se mencionar que ela raramente não ensejará uma graduação social, pela compreensão mais ampla da máquina social, pela capacidade de expressar o próprio lugar, pelo repertório cultural que, ainda (mas talvez mais do que antes), tem valor social.

Aula de literatura: método

30 mar


Tudo o que a gente vê nos manuais é uma repetição de um pequeno conjunto de preceitos ou convenções, e quando nós mesmos o decoramos partimos dele e passamos a produzir uma leitura pessoal da obra ficcional ou poética; essa leitura combina alguns  conteúdos ou repertórios, quais sejam:

  1. a percepção e fruição dos poemas ou narrativas,
  2. os estudos de textos e paratextos críticos (orelhas, resenhas, apresentações etc.),
  3. as tendências particulares como profissionais que refletem a leitura e o texto literário (num sentido próximo ao de uma teoria literária),
  4. a experiência biográfica,
  5. o repertório individual de outras leituras literárias e suas preferências.

Acho que a partir daí formulamos uma leitura, que procura mobilizar aspectos que em nosso próprio modo de olhar são aqueles que melhor revelam o valor e o vigor de cada texto e sua capacidade de iluminar a percepção do mundo de cada leitor. Acho que nesse ponto chegamos a ter uma aula, digamos, modesta e orgulhosamente, uma aula autoral.

dístico

30 mar

A capacidade de esquecer é uma virtude indispensável

Sem ela, a memória se torna uma quimera invencível

Filoctetes, de Sófocles

28 fev

Sófocles, Filoctétes, trad. Trajano Vieira (São Paulo: Editora 34, 2009).

Li o Filoctetes, de Sófocles, traduzido por Trajano Vieira e publicado recentemente pela editora 34. A edição é impecável, com texto bilíngue, indicações de leitura, nota biográfica, excertos críticos, além de um ensaio de Edmund Wilson. As tragédias gregas são um córpus dos mais abissais e emocionantes de toda a literatura. Entretanto, não são de fácil fruição e é necessário algum conhecimento histórico, técnico e dos mitos tratados para fruí-las com mais proveito. Tive vontade de ler essa tragédia pela primeira vez por causa de uma referência que a ela faz Jacques Derrida em uma longa nota de seu livro Paixões. Mais tarde, descobri a existência do ensaio de Edmund Wilson sobre a peça, “Filoctetes: a ferida e o arco” (presente na edição da 34).

Ilha de Lemnos

Filoctetes foi um dos heróis gregos que seguiram para o saque de Troia com Agamenon e Menelau. Quando param em uma ilha para sacrificarem aos deuses, Filoctetes invade inadvertidamente um terreno sagrado e é mordido por uma cobra que guarda o lugar. Sua ferida dói e fede insuportavelmente. Os gregos decidem abandoná-lo na ilha, onde ele permaneceria dez anos. Surge então um vaticínio segundo o qual Troia só cairia com o concurso de dois heróis, Filoctetes e Neoptólemo, filho de Aquiles.

A tragédia começa com a chegada de Ulisses e Neoptólemo à ilha de Lemnos. Ulisses instrui Neoptólemo a enganar Filoctetes dizendo que o levaria para sua ilha natal, mas levando-o para Troia. Neoptólemo, em sua juventude, sente-se desconfortável por considerar indigno tratar de modo capcioso um grande herói como Filoctetes, e isto é que está na base daquilo que Aristóteles chamava “ideias”, o conjunto de temas e argumentos que cada poema trágico faz circular. Neoptólemo sofre a dúvida trágica, a da escolha que deve ser feita entre duas opções terríveis: para ser adequado ao grupo a que pertence, ele devia trair Filoctetes; para ser justo e digno com este herói, ele deveria trair os gregos. Ulisses representa um personagem para o qual o objetivo é o principal, e deve-se fazer o que for preciso para alcançá-lo. Ele parece um arrivista, de moral variável, mas devemos lembrar que é perfeitamente coerente e submisso às leis do grupo.

As cenas de temperatura afetiva mais alta, altíssimas, são as do ataque de Filoctetes, que sofre dores e delírios até desfalecer, e, mais do que esta, a cena do reconhecimento de Neoptólemo por Filoctetes, isto é, quando este resolve revelar que pretendia levá-lo a Troia, e Filoctetes sente-se traído outra vez pelos mesmos que o traíram antes, mandantes do então falsíssimo Neoptólemo. O desenrolar é surpreendentemente rico por contemplar vários graus dos caráteres presentes na tragédia – Ulisses e Neoptólemo alcançam seus objetivos e este último o faz sem trair seus próprios princípios; Filoctetes vai a Troia com a promessa de ser curado e exercer indispensável papel na vitória. No final há uma epifania em que aparece Hércules e é somente pela fala deste que Filoctetes concede em seguir para Troia.


Trajano Vieira está traduzindo muitas tragédias gregas, com regularidade e afinco. Não tenho lido com a presteza que merecem sempre traduções de tragédia. Li há vários anos a tradução de Édipo rei e nas leituras sucessivas fui gostando menos dela porque acho que ela dificulta o que já é difícil. A opção por manter certos termos gregos, as palavras compostas, a prefixação excessiva, essas coisas em um texto difícil como Édipo rei ali não funcionaram. Mas já há tempos queria ler traduções novas e esse Filoctetes realmente está ótimo, com passagens de muito elevada poesia, como a súplica de Filoctetes para que Neoptólemo o leve de lá (pp. 61-65) e diversas falas do coro. Dentre as peculiaridades da tradução de Trajano, há o uso de gírias do qual, de forma geral, não gosto (por exemplo, não é fácil de engolir, eu danço conforme a música, sem chance, coisa que me deixa fulo) e que também não acho adequado ao registro. Também há momentos em que para valorizar os efeitos sonoros dos versos o efeito obtido é inverso, como “urdir ardis” (p. 21), “Ájax jaz?” (p. 55), “Auguro um bom agouro!” (p. 93), “Arco, meu marco” (131), “se a ânima te anima” (131). Os compostos eu acho de muito mal gosto, como circunrebentação, panlacrimal, gravifamélico, hipertépido (p. 85). Mas essas são as implicâncias de meu gosto pessoal com uma excelente tradução de uma obra sob qualquer aspecto excepcional, que pertence a um gênero capaz de dar um tipo de prazer de leitura que nenhum outro repete, nem a lírica, nem a épica.

Enredos-catástrofe

7 fev

Estive uma semana em Caraíva, na Bahia, e como não havia nada pra fazer ficava pensando besteira.

Tenho pensado há algum tempo que se eu tivesse uma imaginação de narrador (e a disposição para o trabalho) poderia aproveitar sugestões que, entretanto, se perdem.

Lá em Caraíva pensei como seria fácil iniciar um enredo-catástrofe com uma simples peripécia no cenário hedonista-realista em que eu me encontrava. Digamos que a comunicação com o outro lado do mundo fosse interrompida. Praticamente tudo vem de fora e o lugar estava cheio de paulistanos que vão pra lá torrar naquele sol inclemente. O enredo podia caminhar para a bárbarie, como no Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, mas também para um admirável mundo novo feito de colaboração e solidariedade entre condenados.

Quanto valeria uma barra de chocolate ou uma garrafa de água depois de uma semana de desabastecimento, como seriam comercializados e protegidos os alimentos em caixas e latas, que se conservam por muito tempo?

Que papel poderiam ter os pataxó que possuíam tudo aquilo antes da chegada dos brancos, e hoje coexistem de modo evidentemente desconfortável com o turismo e com os brancos locais?

Haveria um meio de fuga pela mata guiados pelos índios? Acho que fiquei pensando em enredos apocalípticos para compensar a placidez meio mole do lugar.

A natureza não me deslumbra porque ela é sem caráter, sem drama. A natureza não faz escolhas. A praia é chata e o mar é bom mesmo em Hermann Melville, Homero, Daniel Defoe, Joseph Conrad.

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Para incrementar o enredo poderíamos aproveitar muitas descrições da flora, fauna e topografia baiana feitas no fim do século XVI por Gabriel Soares de Sousa. Quantas peripécias não renderia o estranho animal chamado de buijeja:

“Também se criam outros bichos na Bahia mui estranhos, a que os índios chamam buijeja, que são do tamanho de uma lagarta de couve, o qual é muito resplandecente, em tanto que estando de noite em qualquer casa, ou lugar fora dela, parece uma candeia acesa, e quando anda é ainda mais resplandecente. Tem este bicho uma natureza tão estranha que parece encantamento, e tomando-o na mão parece um rubi, mui resplandecente, e se o fazem em pedaços, se torna logo a juntar e andar como dantes; e sobre acinte [isto é, para maior espanto] se viu por vezes em diferentes partes cortar-se um destes bichos com uma faca em diferentes pedaços, e se tornarem logo a juntar; e depois o embrulharam em um papel por sete ou oito dias, e cada dia o espedaçavam em migalhas, e tornava logo a juntar e reviver, até que enfadava, e o largavam.” (Gabriel Soares de Sousa, Tratado descritivo do Brasil em 1587. São Paulo: Hedra, no prelo.)

Tem também a história dos homens marinhos, que não vou mencionar, como diz o Gabriel Soares, para não enfadar.

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A propósito, há essa anedota. Um amigo foi ao Marrocos. Tínhamos lido a grande narrativa de Elias Canetti,
As vozes de Marrakesh, narrativa de viagem-muito-mais-que-isso. (Vejam o curta-metragem Una sera a Marrakesh, de 2009, narrado em italiano, sobre a praça Djema el-Fna.) Ali, Canetti fala dos narradores que trabalham nas praças, vestidos espalhafatosamente. Por sua vez, meu amigo deparou-se com uma cidade real, muito diferente daquilo que a literatura de Canetti podia expressar e pensamos e indagamos, “Bom, mas o Canetti esteve lá há muito tempo, as coisas deviam ser muito diferentes”, e corrigimos concluindo que era o contrário, muito antes do século xx a rota para a África árabe já era repleta de orientalismo, e daí pensamos que era verdade, que o Canetti vira o mesmo que podia ser visto agora, talvez nem tivesse ido à praça dos narradores, ficou em seu quarto de hotel rodeado de livros sobre as grandes cidades árabes, sua antiguidade, seus tecidos, essências e narradores, adormeceu e sonhou um Marrocos como deveria ser, sem o ruído do presente.

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