PRELIMINARES DE UMA DISCUSSÃO

Iuri Pereira

Que a poesia possa abrir mão de ser lida e que o poema deva ignorar orgulhosamente o leitor são postulados falsos, mas isso na medida em que, anteriores a ele, é justamente o papel do poema preparar, dar à luz aquele que o deve ler, obrigá-lo a ser esse, a partir desse composto, ainda meio cego, meio balbuciante, que é o leitor engajado nas relações habituais ou formado pela leitura de outras obras poéticas.

Maurice Blanchot

A descrição do presente feita por aqueles que participam dos combates atuais será sempre incompleta, talvez falsa, de qualquer modo unilateral.

Maiakovski

O conjunto de idéias e proposições que ocasionaram e foram ocasionadas pelo modernismo brasileiro permanece atuando, repassado por questões surgidas ao correr dos anos, na poesia que se escreve atualmente no Brasil. A vanguarda concreta, o desbunde setentista, o rigorismo precário dos anos 1980 ou o museu de tudo posterior com seu retorno à discursividade mais ampla e uma nova encenação da subjetividade, partem de matrizes criativas que remontam, com acréscimos, ao modernismo1. Talvez pareça ocioso notar o que para muitos é óbvio, mas dizê-lo impede-nos de pronto de tentar descrever um programa poético emancipado das matrizes modernistas em outros momentos da poesia brasileira do século XX, como o concretismo ou a poesia marginal. A poesia contemporânea situa-se amplamente em diretrizes propugnadas pelo modernismo, como o abandono das formas fixas e a instituição do verso livre, a dessacralização do repertório temático, que passa a incluir a referência rasteira e cotidiana e os registros irônicos, satíricos e humorísticos, a busca de uma expressão literária capaz de assimilar a cor brasileira de nossa fala, que passa, por assim dizer, a ser ouvida pelos poetas. Pode-se pensar ainda em uma busca constante que almeja equiparar os recursos técnicos e discursivos da poesia brasileira ao nível de excelência daquela praticada nos principais centros de irradiação cultural. Hoje essa busca parece muito esvaziada, seja pela ausência de movimentos aglutinadores também nos países europeus e americanos, seja porque engolimos a idéia de um mundo em que as distâncias foram gradualmente atenuadas pela velocidade da comunicação, rapidez que não garante, entretanto, a imediata assimilação do que se escreve na Europa ou nas Américas. No que se refere à manutenção da informação poética em dia por meio da militância na polêmica, na tradução, no jornalismo literário e no ensaísmo estamos muito aquém daquilo que produziu a vanguarda concretista.

Duas das principais vedetes formais do primeiro modernismo, o poema-piada e o poema-minuto, são formas que, determinadas pela brevidade, anteciparam ou coadunaram-se a uma exigência de economia, um rigor do mínimo, que ainda orienta muitos poetas hoje.

Há poemas de Oswald de Andrade que não estranharíamos se os encontrássemos deslocados para a antologia 26 poetas hoje2:

sol

Uma vez fui a Guará

A Guaratinguetá

E agora

Nesta hora de minha vida

Tenho uma vontade vadia

Como um fotógrafo3.

Há outros que nos remetem à poesia alusiva e à perversidade doméstica de Francisco Alvim:

adolescência

Aquele amor

nem me fale4.

Poemas como “hípica”, “aperitivo”, e “nova iguaçu”5 encenam representações muito próximas de outras que se produzem hoje, marcadas pela brevidade, pela observação e registro da vida urbana, pelo tom entre irônico e deceptivo e pelo registro fotográfico, estático, mas que inclui os humores do fotógrafo6.

Carlos Drummond de Andrade, seguido por João Cabral de Melo Neto, são, de longe, os autores das obras mais emuladas pelos poetas dos anos 1980 e 19907. Há também sinais claros de uma reapropriação da poesia de Murilo Mendes, tanto em novas abordagens críticas quanto em poemas que buscam o diálogo com sua obra. Haroldo de Campos e seu irmão, Augusto de Campos, ainda hoje têm presença marcante na vida literária, ao menos em São Paulo, e sua obra permanece provocante, suscitando a rejeição decidida de uns e o elogio irrestrito de outros. A obra desses poetas ainda é ignorada pela crítica que, entretanto, entroniza outros autores, como Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector, para mencionar os mais conhecidos, sob a rubrica “terceiro modernismo”. Se houver alguma utilidade em fatiar o modernismo, a última fatia devia conter a vanguarda concreta, cuja atuação, coêtanea à daqueles autores, tanto arejou o debate poético. Depois do rompimento com o grupo paulista e da aventura da militância política nos anos da ditadura militar, Ferreira Gullar publica um extraordinário conjunto de poemas em Na vertigem do dia (1980), Barulhos (1987) e Muitas vozes (1999). Ele é um dos poetas mais ostensivamente lidos pelas novas gerações, além de ser, seguramente, a mais altiva expressão da poesia brasileira hoje.

Poder-se-ia falar, e deve-se fazê-lo, de outros poetas grandes e muito e sempre relidos como Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Raul Bopp, entre tantos que, oriundos do modernismo, deixaram obras que continuam ensejando reverberações.

Parece bastante o que ficou dito, com o que creio se devesse ler o século XX como um século, na poesia, modernista8. Sem demérito das iniciativas críticas que buscam isolar determinado conjunto de realizações ou identificar o próprio da produção atual, até mesmo porque tais achegas costumam partir do modernismo para o que quer que seja, caracterizando, ao cabo, o novo, como diferença sem autonomia.

Lembremos ainda quanto do modernismo é adquirido diretamente de postulados românticos como a insubmissão a regras e modos da tradição, a livre expressão, para não dizer a expressão mesma, o horror ao artificioso, a busca da originalidade e da manifestação espontânea e incondicionada.

Em um texto de Oswald de Andrade, nosso poeta modernista mais modernista, “Novas dimensões da poesia”, datado de 19499, podemos surpreender o vocabulário romântico em plena operação:

“Não há poesia sem uma certa música verbal. Tão particular que se lhe devia dar outro nome. Desde que essa música fere os ouvidos feitos para escutá-la, há poesia. Acrescentamos, porém, que uma coisa tão mesquinha — algumas vibrações sonoras, um pouco de ar removido — não pode ser o elemento principal e muito menos único que compromete o mais íntimo de nossa alma. Cascavéis da rima, fluxo e refluxo das aliterações, cadências previstas ou dissonantes, nenhum desses belos ruídos alcança a profunda zona onde fermenta a inspiração. Mas são as palavras que transmitem o fluido misterioso que nos toca. Estabelecem-se por irradiação e impulso a magia e o contágio. Contanto que tenhamos em nós o fio-terra. A receptividade capaz de conhecimento poético. Não importa a vestimenta quadriculada ou não do mensageiro.”

Em 1949 João Cabral de Melo Neto já publicara Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945) e Psicologia da composição (1949).

O decênio de 1970 assiste a uma efervescência invejável nos rincões da poesia, principalmente no Rio de Janeiro, onde um grupo de jovens formula, de bar em bar, segundo o anedotário, propostas que, carreadas em poemas, eram sobretudo uma resposta para uma situação de clausura política e falta de opções democráticas.

Não obstante, pode-se discernir hoje contribuições substantivas de poetas que apareceram no grupo do Rio de Janeiro, como Cacaso, Ana Cristina César, Chico Alvim e Waly Salomão. Acontecimento decisivo para a totalização das realizações do período, a antologia 26 poetas hoje10, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, perfilou o que parecia pertencer a um conjunto, o da poesia marginal ou geração mimeógrafo ou desbunde ou independentes.

Na introdução à antologia, Hollanda expõe as características daquela geração: a constituição de “um circuito paralelo de produção e distribuição” que provoca uma aproximação entre o poeta e seu leitor; “a desierarquização do espaço nobre da poesia — tanto em seus aspectos materiais gráficos quanto no plano do discurso” na qual se quis ler uma atitude de subversão da “política cultural que sempre dificultou o acesso do público ao livro de literatura e ao sistema editorial”; a recusa à “literatura classicizante”, referência suposta à geração de 45, e às “correntes experimentais de vanguarda”; “O flash cotidiano e o corriqueiro muitas vezes irrompem no poema quase em estado bruto e parecem predominar sobre a elaboração literária da matéria vivenciada” e, por último, “a aproximação entre poesia e vida”11.

É um período bem documentado e que já conta com um apreciável conjunto de debates e aproximações críticas12. A totalização da poesia da década de 1970 como marginal não contempla, como é compreensível, todo o espectro de realizações do período, deixando correr por fora poetas como Júlio Castañon Guimarães e Régis Bonvicino que não compartilhavam aquele programa poético e que viriam a ser identificados a um grupo que se tornou mais proeminente nos anos 1980. Tanto houve um acontecimento chamado poesia marginal que deve ser levado em conta, que os poetas da “geração” seguinte, como Paulo Leminski, Nelson Ascher e Régis Bonvicino, dedicaram textos à sua desqualificação mais ou menos dogmática13. Os esforços críticos de particularização do período valeram muito, pois lograram constituir um poderoso conjunto de realizações e debates que emprestaram grande densidade às realizações poéticas daquele decênio.

Nos anos 1980 alguns autores que ganharam visibilidade com a antologia de Heloísa Buarque de Hollanda, são absorvidos por uma grande e tradicional editora de São Paulo, a Brasiliense. Essa contingência editorial é tomada algumas vezes como um marco do esgotamento do percurso da poesia marginal14. Publicam-se, então, Passatempo e outros poemas (1981) de Francisco Alvim, A teus pés (1982) de Ana Cristina César, Drops de abril (1983) de Chacal e Beijo na boca e outros poemas (1985) de Cacaso, todos com caráter de antologia que recolhe a produção pregressa.

Também seria publicado pela Brasiliense, em 1983, e também incorporando livros anteriores, Caprichos e relaxos, de Paulo Leminski. O volume da produção de Leminski é espantoso e sua obra poética é um ponto axial que faz circular ao seu redor tanto aspectos do vitalismo inconformista quanto a exigência de rigor construtivo e economia icônica do material semântico que orientarão vários poetas nos anos 1980, irmanados na admiração ao grupo da poesia concreta. Nas cartas de Paulo Leminski a Régis Bonvicino podemos ler passagens que revelam seu conflituoso relacionamento com o programa concretista, cujo rigorismo irredutível não podia conter o temperamento entusiasmado e passional de Leminski.

Em uma das cartas, não datada mas que deve ter sido escrita ao redor de 1978, Leminski escreve: “descobri: a poesia concreta, para mim, é um cavalo. para o cavaleiro, o cavalo não é a meta. talvez, cavalgando a poesia concreta, eu chegue ao que me interessa: a minha poesia.”15 Fica claro que havia uma independência incisiva e uma perspectiva crítica segundo a qual Leminski constituía sua poesia como própria apenas dele mesmo. Em 23 de julho de 1978 escreve, em tom mais acerbo:

“tem lugar para todo mundo vamos deixar de ser fascistas

o concretismo ou significa liberdade

ou não significa NADA

chega de leis

basta de normas

cada obra agora

já sabe o que fazer”16.

Lúcido, escreve ao amigo poeta em 1977:

“talvez não haja mais tempo

para grandes e claros gestos inaugurais

como a poesia concreta foi

a antropofagia foi

a tropicália foi

agora é tudo assim

ninguém sabe

as certezas evaporaram”17.

Ainda patenteando o conflito, transcrevo mais uma passagem, na qual encontramos uma das poucas referências à poesia marginal, cuja ausência deve-se à ocupação monomaníaca do epistolário com discussões sobre o alcance e os limites do concretismo:

“me interessam produtos

que embora não iluminados

pela luz total

ou rigor concretos

apresentam irregularidades

portadoras de informação

penso principalmente

nas coisas do torquato-últimos-dias-de-paupéria

waly/me segura q eu vou dar um troço

mautner/fragmentos de sabonete

alguma coisa dessa coisa esculhambada

que chamam de poesia-underground

de mimeógrafo

ou da boca do lixo

quem sabe que invenção pode estar por ali?”18

Leminski é o principal poeta da geração que se afirma nos anos 1980, promovendo uma revalorização do concretismo e recusando tanto a poesia participativa quanto o descompromisso marginal. Outros nomes de proa dessa tendência são os de Régis Bonvicino, Nelson Ascher, que foi editor do suplemento Folhetim, do jornal paulistano Folha de SP, que abrigou ocasionalmente a produção desse grupo, Carlos Ávila, Horácio Costa, Lenora de Barros, Júlio Castañon Guimarães, Arnaldo Antunes, Age de Carvalho e Antonio Risério.

Verifica-se uma deflação determinada da subjetividade hiperbólica presente na poesia setentista em favor de um objetivismo que valorizaria os recursos materiais em poemas de uma concisão esquálida, infensos a exalações afetivas e, por isso, ascéticos:

não

se iluda

!

prosa:

dois dedos de

bastam

para dizer

o que se pensa

poesia

meia palavra

gasta19.

Há uma revalorização do investimento técnico da poesia e também da erudição, que se surpreende em uma expressiva atividade tradutória, na produção de ensaios críticos e intervenções polemistas, bem como na aplicação profissional em seguimentos diversos da indústria cultural, como a pesquisa acadêmica, a direção de veículos de imprensa e a edição de textos20. Nos anos 1970 ninguém enrubescia ao dizer-se poeta, mas pegava mal ser letrado e na década seguinte, blasonando-se de eruditos, os poetas procuraram disfarçar o que eram, conforme se lê em um poema de Régis Bonvicino:

ó poeta

fiz tão pouco

publiquei tão menos

nem sei se posso

proclamar-me poeta

I, too, dislike it

enfim

um escritor

que mal escreve

bom prato

para as ironias

baratas

e um “poeta”

entregue às traças

chegarei à velhice

sem aprender nada

era virar

um purgante insuportável

minha meta

mas nem isso

terminam chegando perto

de mim

e batendo nas costas

ó, poeta21.

O rigorismo precário que dominou os anos 1980, traduzia-se na exigência de dificuldade e na interdição ao aspecto deleitoso da poesia:

O fascínio do fácil

quem se debruça no fosso

do que tão fundo se sente

que apenas roça o sentido

e mais das vezes só logra

sentir escapar entre os dedos

a carpa magra do ambíguo

não há de olhar vez por outra

com olho grande e guloso

e orgulho ressentido

a safra grossa e fornida

de quem marisca sem medo

a verdade mais ridícula

no raso dos sentimentos

por não saber nesse mar

pescar em outro capítulo?22

É uma poesia que afeta gravidade e sofre um patrulhamento ostensivo de uma propalada consciência da linguagem, incapaz de rir de si mesma ou encampar gestos inconseqüentes. O humor e a ironia muito corrosiva perseveram, diga-se, em outros autores desse quadrante, raros, como Glauco Mattoso e Sebastião Uchôa Leite que, embora tenha publicado seu primeiro livro, Dez sonetos sem matéria, em 1960, por mais de um aspecto de sua poesia e por sua trajetória pessoal, deve ser perfilado a esse grupo. Dentre os poemas desse período com interesse por encenar questões originadas nos debates literários, contem-se “Lingüística”, de Castañon23, em chave lúdica que atenua um questionamento conseqüente, “Fala”, de Duda Machado24 e as duas “Indagações” de Paulo Henriques Britto, dirigidas a João Cabral de Mello Neto e Augusto de Campos25.

Iniciativas gregárias promovidas pelos poetas dos anos 1980, responsáveis pela revivescência vanguardista, que permanecem como documentos daquele momento, assinalando a existência de um debate sobre os rumos da poesia, são as revistas Qorpo estranho, Código e Atlas. O último não é propriamente uma revista, senão um livro coletivo, de dimensões excepcionais, 30 x 45 cm., com 146 páginas impressas em cores. Ao lado da produção dos poetas, vemos colaborações de artistas de diversas áreas, músicos, cineastas, pintores, em um objeto exuberante cuja edição deve-se, entre outros, a Arnaldo Antunes. Qorpo estranho, editada por Régis Bonvicino e Júlio Plaza, teve apenas três números em um longo intervalo delimitado pelos anos de 1975 e 1982. Mais decisivamente voltada à divulgação de poesia, também acolheu, como Atlas, contribuições de artistas plásticos e trazia como subtítulo em seu segundo número a expressão “criação intersemiótica”. Erthos Albino de Souza editou na Bahia, entre 1973 e 1989, a revista Código, que teve doze números. O número 11, publicado em 1986, dedicado à celebração dos trinta anos da poesia concreta, trazia textos de Carlos Ávila, Antônio Risério e exaustiva bibliografia do movimento, elaborada por Vinícius Dantas. Nenhum desses veículos foi representante exclusivo de uma tendência, mas circularam por eles muitos desses poetas que julgamos mais característicos daquele decênio.

Em 1990, dois eventos realizados em São Paulo, consolidam e atestam a densidade do debate poético. “A palavra poética na América Latina: avaliação de uma geração” foi uma série de encontros e leituras organizada por Horácio Costa no Memorial da América Latina, em São Paulo, que contou com a participação de sete poetas brasileiros e nove estrangeiros, sendo oito hispano-americanos e um espanhol, além do organizador. As contribuições apresentadas e os poemas lidos tornaram-se um livro26, homônimo do encontro, em que se pode ler, entre outras, reflexões muito interessantes de Duda Machado e Júlio Castañon Guimarães sobre a poesia brasileira no século XX. Artes e ofícios da poesia, organizado por Augusto Massi, é um livro riquíssimo com depoimentos e poemas originalmente apresentados em uma série de encontros realizados no Museu de Arte de São Paulo. Seu espectro é muito mais amplo do que aquele encontrado em A palavra poética na América Latina, resultado da preocupação de seus organizadores “em não tomar este ou aquele partido, porém antes em dar a conhecer”27. O caráter heterodoxo do conjunto teria orientado também outra iniciativa de Augusto Massi, a coleção Claro Enigma, um acontecimento relevante para a poesia no fim da década de 198028.

Dos oito poetas brasileiros integrantes do encontro e do livro organizados por Horácio Costa, sete voltariam a ser reunidos em uma antologia da poesia contemporânea, paradoxalmente publicada por uma editora de Los Angeles em edição bilíngüe para o mercado norte-americano, que reuniu 20 poetas sob o título Nothing the sun could not explain — 20 contemporary brasilian poets29. Organizada por Régis Bonvicino e Nelson Ascher, além do poeta norte-americano Michael Palmer, ela é bastante representativa do mencionado grupo de poetas que consolidaram a carreira na década de 1980 em oposição ao espontaneísmo da geração marginal e ao compromisso de comunicação imediata e comprometida da poesia engajada. O dado novo, e que indica reavaliações no modo de os organizadores compreenderem a dinâmica da produção poética no Brasil, é a inclusão de autores inequivocamente identificados à poesia marginal, como Francisco Alvim e Ana Cristina César. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

No ano seguinte sairiam outras duas antologias de poesia contemporânea, uma das quais, Outras praias30, organizada por Ricardo Corona, era uma réplica explícita à antologia da dupla Ascher e Bonvicino31, embora compartilhasse com esta alguns nomes. A outra antologia, Esses poetas32, a organizou Heloísa Buarque de Hollanda e sua seleção eclética, demissionária da busca de uma diretriz programática comum, acolhe poetas que estrearam antes dos anos 1990, como Arnaldo Antunes, Nelson Ascher, Valdo Motta e Lu Menezes, excepcionalmente, mas seu principal interesse é como amostragem da produção de poetas que começaram a publicar depois daquele ano. Em 2002 esse repertório seria um pouco mais atualizado com a antologia Na virada do século — poesia de invenção no Brasil33, organizada por Frederico Barbosa e Claudio Daniel, cujo mérito foi incluir vários poetas cujas publicações individuais haviam circulado apenas em âmbito muito restrito.

Miudamente, essas antologias, quase sempre organizadas por poetas, registram movimentos de afetos e desafetos que vigoram nas relações interpessoais e que determinam, muitas vezes, de uns a presença e a exclusão de outros.

A produção crítica voltada à poesia contemporânea é esparsa e descontínua, mas devemos constatar o interesse sempre renovado de vários críticos acadêmicos a essa estante. No Rio de Janeiro, temos Silviano Santiago, Flora Sussekind e Luís Costa Lima, em São Paulo, Iumna Maria Simon e Viviana Bosi, no Pará, Benedito Nunes, excetuados os críticos que são também poetas como Augusto Massi, Ítalo Moriconi, Alcides Villaça e Antonio Carlos Secchin. Registrem-se ainda as incursões eventuais, como a de Antonio Candido lendo Orides Fontela, João Adolfo Hansen lendo Glauco Mattoso, Alfredo Bosi leitor de José Paulo Paes, Davi Arrigucci Júnior para o mesmo José Paulo Paes bem como para Rubens Rodrigues Torres Filho ou Chico Alvim lido por Roberto Schwarz.

Quanto ao espaço detido pela poesia em periódicos, o tom dos jornalistas é quase sempre enfadado e deceptivo, quando não dominado por incerta soberba e condescendência, como deixa ver a seguinte passagem, escrita por um jornalista ao final de uma resenha de livros de Carlito Azevedo e Arnaldo Antunes: “[…] é possível que em público tudo que devamos fazer é saudar cada poeta com sorrisos levemente congratulatórios e, ao fim do dia, voltar aos nossos pares, aos nossos livros, àquilo que nos dê descanso e consolo.”34 De lembrar, também, a marota, e como tal infantil, matéria que o mesmo jornalista escreveu falando dos grupos de poetas atuantes no Rio de Janeiro e comparando-os a enxames de vespas, que, ao fim, diagnostica: “Num quadro como esse, o leitor indiferente à poesia talvez não mereça ser recriminado. Ou você já tentou diferenciar uma vespa da outra?”35 Para que não pareça perseguição, dou outro exemplo, do jornalista José Castello que, resenhando a antologia Esses poetas, diz: “[…] uma geração de poetas quase sempre apáticos, desencorajados, que parecem escrever às cegas e premidos por forte inibição intelectual.”36 Era mais útil que a grande imprensa esquecesse definitivamente a poesia ou a perfilasse à filatelia, à numismática, à heráldica, deixando-a ao trato dos especialistas, alvos de freqüentes ataques oriundos das fileiras do universalismo comunicativo das mídias. “Incompreensível para as massas.”

Não obstante os juízos apocalípticos e as invectivas saudosas da “grande poesia”, é muito ponderável a quantidade de iniciativas orientadas à promoção do debate poético contemporâneo37. É um raro acontecimento uma revista totalmente dedicada à poesia, como Inimigo rumor, chegar ao sexto ano de vida e ao 13o número38, e não é um fato isolado. Podemos lembrar outras revistas como O carioca, de que fez parte o poeta Chacal e que circulou entre 1995 e 1998, Monturo, feita por Tarso de Melo, Azougue de Sérgio Cohn, Medusa, editada por Ricardo Corona e Sebastião, cujos responsáveis são os poetas Paulo Ferraz, Matias Mariani e Pedro Abramovich.

Dentre os poetas que, surgidos nos anos 1980, seguiram publicando e hoje já ostentam um significativo conjunto de poemas, lembraria os nomes de Donizete Galvão, Paulo Henriques Britto, Fernando Paixão, Age de Carvalho, Régis Bonvicino e Júlio Castañon Guimarães, ressalvando que os dois últimos estrearam na década anterior e que a lista serve apenas como paradigma ao qual poderiam e deverão ser trazidos outros poetas.

Os objetos mais estáveis desta narrativa são os poemas, lugar privilegiado de observação de acontecimentos que, porventura, os conformam. Talvez por puro exercício de vaidade, exercício pessoal e passional, destacarei alguns poemas que, por bem conseguidos, julgo devam merecer o beneplácito dos futuros antologistas das páginas de ouro de nossa lírica vernácula: “Fala”, de Duda Machado, “Nadador”, de Fernando Paixão, o segundo dos “Dois sonetos sentimentais”, de Paulo Henriques Britto, “Sombras cúmplices”, de Régis Bonvicino, “Defesa e ilustração”, de Nelson Ascher, “Imagem”, de Augusto Massi, “Os poros flóridos”, de Josely Vianna Baptista, “No restaurante”, de Frederico Barbosa, “Ao rés do chão”, de Carlito Azevedo, “Através”, de Tarso de Melo, “Spik [sic] tupinik”, de Glauco Mattoso, “A bordo da chuva”, de Lu Menezes, “Sítio”, de Cláudia Roquette-Pinto. Tais poemas eu os colocaria entre meus preferidos e creio pudessem adoçar nossa felicidade, que Paulo Henriques Britto resumiu em “uns nove/ metros quadrados de privacidade/ para abrigar os prazeres amenos/ do sexo fácil e da literatura/ difícil”.

1 Júlio Castanon Guimarães afirma: “Depoimentos de poetas atuais revelam uma constante inescapável: a leitura dos modernistas é básica, é o solo em que pisamos.” Em “Gerações e heranças: algumas indagações” em Horácio Costa (org.), A palavra poética na América latina: avaliação de uma geração, São Paulo, Fundação Memorial da América Latica, 1992, p. 195.

2 Heloísa Buarque de Hollada (org.), 26 poetas hoje, Rio de Janeiro, Labor, 1976.

3 Oswald de Andrade, Poesias reunidas, 5a ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978, p. 104-5.

4 Idem, p. 160.

5 Idem, pp. 129, 126 e 108, respectivamente.

6 Sobre a incorporação definitiva do coloquialismo de extração modernista ao repertório básico de técnicas na literatura brasileira ver Iumna Maria Simon e Vinícius Dantas, “Poesia ruim, sociedade pior”, Novos estudos Cebrap, no 12, junho de 1995, p. 52, n. 10.

7 Ver edição recente da revista Cult em que dez poetas contemporâneos foram convidados para falar de Drummond por ocasião dos dez anos de sua morte. Cult, no 26, setembro de 1999.

8 Nada impede que se tente pensar a autonomia da poesia contemporânea em relação ao cânone modernista, mas não foi esse o enredo que escolhi.

9 Em Estética e política, São Paulo, Globo, 1992, p. 112.

10 Já citada.

11 “Introdução”, em 26 poetas hoje, já citado, pp. 7-11.

12 Por exemplo Nelson Ascher, “Marginália marginal”, em Qorpo estranho, no 3, São Paulo, Alternativa, 1982, pp. 162-171 e “Até poesia soltava faísca nos anos 70”, Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 28 de fevereiro de 1993, p. 6; Glauco Mattoso, O que é poesia marginal, São Paulo, Brasiliense, 1981 (Coleção Primeiros passos); Heloísa Buarque de Hollanda e Carlos Alberto Messeder Pereira, Poesia jovem – anos 70, São Paulo, Abril Educação, 1982 (Coleção Literatura comentada); vários textos de Antonio Carlos de Britto, o Cacaso, em Não quero prosa, Rio de Janeiro/Campinas, Editora da UFRJ/Editora da Unicamp, 1997 (Coleção Matéria de poesia); diversos textos reunidos no número de Arte em revista dedicado aos independentes, Arte em revista, no 8, São Paulo, Centro de Estudos de Arte Contemporânea, outubro de 1984, pp. 69-85; “Debate: poesia hoje”, José, no 2, agosto de 1976; “Poesia por vias transversas”, Escrita, no 19, abril de 1977; Carlos Alberto Messeder Pereira, Retrato de época, Rio de Janeiro, Funarte, 1981; Heloísa Buarque de Hollanda, Impressões de viagem, São Paulo, Brasiliense, 1980; Ítalo Moriconi, “Demarcando terreno, alinhavando notas (para uma história da poesia recente no Brasil)”, Travessia, no 24, UFSC, 1o semestre de 1992; Iumna Maria Simon e Vinícius Dantas, “Poesia ruim, sociedade pior”, já citado.

13 De Nelson Ascher ver os textos citados na nota anterior; de Régis Bonvicino ver “A marginalidade circunstancial” e de Paulo Leminski “Tudo, de novo”, ambos no número 8 de Arte em revista, já citado.

14 Ver o texto de Ítalo Moriconi citado na nota 11, à p. 21 e Vinícius Dantas, “A nova poesia brasileira e a poesia”, Novos estudos Cebrap, no 16, dezembro de 1986, p. 40.

15 Paulo Leminski e Régis Bonvicino, Envie meu dicionário, São Paulo, 34, carta 17, p. 63.

16 Idem, carta 25, p. 73.

17 Idem, carta 9, p. 50.

18 Idem, carta 39, p. 106

19 Carlos Ávila, Bissexto sentido, São Paulo, Perspectiva, 1999, p. 58 (Coleção Signos).

20 Como exemplos, temos a edição de Cocktails, de Luís Aranha, feita por Nelson Ascher e Rui Moreira Leite, São Paulo, Brasiliense, 1984; a edição da Poesia erótica e satírica, de Bernardo Guimarães, feita por Duda Machado, Rio de Janeiro, Imago, 1992; a edição de A cinza das horas, Carnaval e Ritmo dissoluto, de Manuel Bandeira, em volume único, preparada por Júlio Castañon Guimarães e Rachel Teixeira Valença, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994.

21 Régis Bonvicino, Más companhias, São Paulo, Olavobrás, 1987, p. 13.

22 Paulo Henriques Britto, Mínima lírica (1982-1999), São Paulo, Duas Cidades, 1989, p. 74 (Coleção Claro enigma). O autor volta a tematizar tais exigências nos poemas “Profissão de fé” e “Mínima poética II”, impressos no mesmo livro às páginas 48 e 91, respectivamente.

23 Matéria e paisagem e poemas anteriores, Rio de Janeiro, Sette Letras, 1998, p. 133.

24 Crescente (1977-1990), São Paulo, Duas Cidades, 1990, p. 9 (Coleção Claro enigma).

25 Mínima lírica (1982-1999), já citado, pp. 88-9.

26 Já citado. Ver nota 1 supra.

27 Conforme apresentação de Leda Tenório da Motta em Artes e ofícios da poesia, São Paulo/Porto Alegre, Secretaria Municipal de Cultura/Artes e Ofícios, 1991, p. 9.

28 Sobre a poesia produzida na década de 1980 pode-se ler, entre outros, “A recente poesia brasileira – Expressão e forma”, de Benedito Nunes, em Novos Estudos Cebrap no 51, out. 1991, pp. 171-183; “A fala do fora: uma lida”, de Raul Antelo, em Desencontrários: 6 poetas brasileiros, organização de Josely Vianna Baptista, Curitiba, Associação Cultural Avelino Vieira, 1995, pp. 12-17; “Caminhos recentes da poesia brasileira”, de Antonio Carlos Secchin, em Poesia e desordem, Rio de Janeiro, Topbooks, 1996, pp. 93-110.

29 Los Angeles, Sun & Moon Press, 1997.

30 São Paulo, Iluminuras, 1998.

31 Conforme se afere das declarações de Ricardo Corona reproduzidas em José Castello, “Antologia reúne diversidade poética dos anos 90”, O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 25 de abril de 1998, p. 6.

32 2a edição, Rio de Janeiro, Aeroplano, 2001 (a primeira edição é de 1998).

33 São Paulo, Landy, 2002.

34 Carlos Graieb, “Estigma da cópia faz o inferno dos poetas”, O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 25 de setembro de 1993, p. 1.

35 Idem, “Tribos invisíveis”, Veja, 14 de julho de 1999, pp. 138-40.

36 “Produção desigual marca antologia dos anos 90”, O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 2 de janeiro de 1999, p. 3.

37 Ronald Polito publicou ultimamente um interessante texto sobre a poesia recente que dá notícia dessa efervescência. Cf.“Notas sobre a poesia no Brasil a partir dos anos 70”, em Cacto, no 2, São Paulo, 2003, pp. 62-71.

38 Edita-a o excelente Carlito Azevedo, inicialmente com Júlio Castañon Guimarães e, hoje, com Augusto Massi, sob a auspiciosa e constante chancela da editora carioca 7Letras, de Jorge Viveiros de Castro, casa de parte considerável dos poetas que iniciaram a carreira nos anos 1990.

2 Respostas a “Preliminares de uma discussão, por iuri pereira”

  1. Maria José Diz:

    Gostaria de obter qual o município e estado de que é publicada este artigo “Preliminares de uma discussão”.

    No aguardo. Obrigada.

    Att,
    Maria José


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