Andei lendo um livro de contos do Lovecraft que editamos na Hedra (www.hedra.com.br). Tem em apêndice uma carta muito interessante como documento da imaginação de um artista. É uma carta autobiográfica ou autobibliográfica na qual há declarações impagáveis como “não vejo razão que justifique crenças em qualquer forma de mundo espiritual ou sobrenatural” (p. 142) ou “Creio que esse tipo de coisa fascina-me ainda mais porque não lhe dou o menor crédito!” (idem). Fiquei impressionado com a clareza com que Lovecraft distingue vida cotidiana e imaginação fantástica. Coisas que não confunde nunca.

Mais adiante ele diz “Tenho uma agenda onde anoto ideias estranhas e enredos rudimentares para uso posterior, e também um arquivo de notícias estranhas de jornal que uso como possível fonte de inspiração” (p. 148). Todos sabem que o elemento moderador do fantástico literário é o estranho e o dúbio, o inumano, o mais-ou-menos-que-humano, o semi-humano, o pós-humano.

Daí eu me deparei, na revista Istoé de 13 de maio de 2009, com a seguinte notícia:

hobbit

O segundo capítulo interrompe a narrativa da espera na rodoviária e retrocede cerca de cinco anos para narrar o parto. O foco está no marido e em sua inadaptação àquela situação tensa e cheia de exigências que ele teria de cumprir sentindo-se despreparado. No correr dos minutos até o parto da filha, o narrador vai colorindo a situação através da explicitação do vínculo entre o marido e cada um dos três outros personagens, a mãe dele e o pai e a mãe dela. A caracterização se completa. Há um desnível de origem social e cultura entre os dois com desvantagem para ele. Ela reage mal à gravidez e ao advento da menina. Ele ansiosa, acolhedora e desajeitadamente. Também ocorre a exposição de um segredo de leito: ele acha que no ímpeto da cópula teria intencionalmente rompido o preservativo para produzir um vínculo duradouro com ela. Também se revela que o marido se envolveu em um ato de corrupção e por isso perdeu o emprego e resolveu se mudar.

O terceiro capítulo retoma a narrativa no momento da espera do ônibus e cria uma expectativa de estruturação dos capítulos em presente e passado. O desdobramento temático responde a uma pergunta deixada no primeiro capítulo: o que estaria ameaçando e deixando tão ansiosa a esposa? É que ela tem um amante, que ficou obsessivo desde que ela disse que se mudaria com a família. Há a possibilidade de ele chegar à rodoviária e haver um conflito direto. O foco está na esposa. Ela é uma herdeira de uma grande família em sua cidade natal; aparentemente herdou só o nome e a empafia, porque a família é presentemente empobrecida. Ela tem quase trinta anos e a união dos dois ressoa os desníveis de classe: “Fazia tempo, seus momentos [do marido] de felicidade conjugal entremeavam-se às prestações da dívida que tinha para com a mulher, como compensação por tê-la a seu lado e pela filha que lhe dera.” Ela abastece-se também da admiração e do sentimento de inferioridade do marido, que a considera melhor do que ela própria se sente.

O livro começa com um foco bastante descritivo, estático e aproximado. Mostra um homem, o marido, em um balcão de lanchonete de uma rodoviária, comendo um sanduíche, que logo parecerá uma forma grotesca, e destaca seu tamanho avantajado. O andamento parece lento por causa da descrição minuciosa: “Ao cravar os dentes [...] faz o molho brotar [...] amolecendo o guardanapo de papel e caindo [...]“. Em seguida o foco cai sobre a esposa, acentuando seu incômodo com o lugar, que acha sujo, à diferença do marido, que está à vontade. O terceiro elemento da composição é a filha de cinco anos, incomodada pelo sono. Em seguida um parágrafo com foco mais distanciado e a totalização das descrições numa imagem: “Para quem os vê, todos de costas, [...] compõe uma escadinha íngreme, que termina com a criança”. Está amanhecendo e a família espera um ônibus e está se mudando de cidade. O foco se aproxima novamente e o marido pede mais guardanapo ao garçon; em seguida percebe que deixou respingar catchup na camisa mas, antes mesmo de perceber, já tinha recebido o olhar reprovatório da esposa. Em seguida a filha tenta encostar-se ao balcão e é advertida pela mãe, que sai para tomar alguma providência, para não ficar “esperando pelo pior”. Não sabemos ainda o que é este pior. A menina encosta-se ao pai e faz menção de adormecer, mas antes vai buscar uma boneca na mala. Nesse momento o narrador aproxima seu registro do olhar do pai e reproduz a afetividade intensa com que ele observa cada pequeno detalhe de seus movimentos e de sua figura. Aqui parece haver algo de desarmonioso com a caracterização do homem que, há pouco, abocanhava o sanduíche. O homem olha em direção à tv e o foco passa para ela e se distancia, agora muito, da cena. Os próximos parágrafos enumeram as notícias corriqueiras – guerras, corrupção, ecologistas apocalípticos, violência, miséria e falência social. É o momento em que o narrador aparece, quase destacado da cena, interpretando e criticando uma realidade que, se é verdade que emoldura a cena, é uma moldura muito distante. Quem vê e presta atenção à tv é o narrador, não a personagem, que está fazendo hora, combalido pelo sono da noite interrompida e do estômago cheio. (Mas pode ser que mais adiante o noticiário ganhe outros sentidos.) A esposa volta, mostrando impaciência, e o marido pede que se acalme. Daí ocorre a cena que encerra o capítulo. A esposa avista uma mãe negra e pobre amamentando seu filho – o registro nesse momento se torna extremamente lírico fazendo avultar os menores índices do amor trocado ali. A esposa fica absorvida pela cena. Tem sentimentos contraditórios e revela-se que houve algum tipo de afastamento entre ela e sua filha. Este afastamento foi motivado pelas circunstâncias e o sinal traumático que deixou continua a existir. Para onde será que eles vão e por quê? De onde estão partindo? Qual terá sido a circunstância que afastou mãe e filha e qual a responsabilidade do marido nisso? O que causa o temor da esposa enquanto esperam? Parece ser uma história que começa pelo fim, pelo ponto de chegada e que vai ser reconstituída até ali, embora o destino das personagens não seja, é claro, a rodoviária, e este cenário patenteie muito mais o transitório do que o definitivo. Vamos ver.