É preciso operar o sentido da gratuidade da leitura literária ao lado do sentido de uma utilidade difusa, que não se pode converter imediatamente em moeda, mas que, entretanto, é uma das competências mais indispensáveis para se operar uma trajetória social direcionada àquilo que se tenha planejado para si, o que quer que seja.
Essa competência é a do próprio trato social em um sentido amplo, que exige a imaginação organizada que preside a criação e a fruição de um mundo narrativo, bem como de um mundo fatual; a leitura, isto é, a análise rápida das situações, dos tipos humanos e dos desejos e poderes em jogo em cada tabuleiro social, seja a família paterno-materna, seja a família instituída pelo casamento e procriação, seja o campo profissional, do trabalho, das ordens e subordinações, seja o trato da amizade.
Ao mesmo tempo em que a leitura deve ser cultivada como atividade gratuita, deve-se mencionar que ela raramente não ensejará uma graduação social, pela compreensão mais ampla da máquina social, pela capacidade de expressar o próprio lugar, pelo repertório cultural que, ainda (mas talvez mais do que antes), tem valor social.