O surgimento da tragédia no século v a.C. na Grécia é um evento inacreditável de formulação de formas artísticas, religiosas e civis. Foi inventada ali uma forma de representação letrada sem precedentes. Em primeiro lugar pela incorporação de uma personagem mítica por um cidadão, um ator, que assume a ação trágica, encarnando, por assim dizer, o mito. A explicação remete a origem da prática teatral a representações efetuadas durante a celebração religiosa, o que não diminui a surpresa da espantosíssima invenção. Depois pela precisão, economia, concentração com as quais os tragediógrafos agenciam os elementos do mito, surpreendendo-o no momento mais intenso, exemplarmente no Édipo rei, de Sófocles, obra de arte perfeita, infinita e incompreensível. As tragédias eram representadas durante as festas de celebração civis, eram assistidas, consta, por todo o conjunto de cidadãos, e desempenhava um papel na moderação dos afetos particulares, por meio da catarse trágica; catarse é uma descarga afetiva, uma emoção fortíssima com repercussões identitárias, isto é, uma catarse produz um novo conhecimento do mundo e de si. Para alguns autores a tragédia representa também a “vontade de autodeterminação do homem”, um homem que se vê diante de uma escolha sem escolha, pois todo caminho leva a algum tipo de punição. Exemplarmente, Antígona, também de Sófocles. Dentre as peculiaridades que tornam o universo trágico sensacional, conte-se o fato de restarem para nós apenas três autores, Ésquilo, Sófocles e Eurípides, e 28 tragédias completas. Dentre os temas mais comuns estão a desmedida e o descaso com o culto aos deuses, ambos terminando em punição corretiva de gestos excessivos. A tragédia é também uma forma que combina os dois subgêneros preexistentes da poesia, a épica e a lírica. Deveria falar do coro, que fala “em lírica” e é muito variado, mas vale dizer que frequentemente é um comentador coletivo da ação trágica que se situa a meia distância desta ação, mas que sofre os efeitos emocionais dela. Lembro como exemplo de coro invencível, o de Medeia, tragédia máxima, obra de arte perfeita. Há uma cena em que Medeia conversa com as amas que formam o coro, o primeiro momento em que ela reconhece sua condição desgraçada. Medeia é a extraordinária princesa da Cólquida, neta de Apolo, conquistada e traída. No filme de Pasolini a cena ficou magistral, com Maria Callas-Medeia. E Medeia é de Eurípides, autor de As bacantes.

Baco e o Vesúvio -- 140 x 101, Pompeia, Casa do Centenário, antes de 79 d.C. (Le colezione del Museo Nazionale di Napoli. Milano: De Luca Eidzione D´Arte)
As bacantes — ver em http://bit.ly/kSxlWD — é repleta de coisas maiores, mas dentre elas cabe falar de início da presença ostensiva em cena de um deus, Dioniso, o deus trácio, deus novo e oriental, gestado na coxa de Zeus. A ação se passa em Tebas sob o reinado de Penteu, que desdenha a origem divina de Dioniso, infamando ao deus e também à sua mãe, Sêmele. Dioniso vai a Tebas reparar a ausência de seu culto ali. Dentre as cenas estarrecedoras está aquela em que Tirésias e Cadmo, avô de Penteu, envergam os paramentos do culto báquico — uma coroa de hera e um tirso, espécie de bastão enfeitado –, numa aceitação submissa ao culto novo do deus poderoso. É uma cena ridícula, mas não provoca nenhum riso, mas sim respeito pela grandeza da submissão de um velho, como Crisis no começo da Odisseia e Príamo no final da Ilíada. Como se sabe os dois homens são velhos, e devem encarnar a moderação que vem da experiência, tornando a dupla de velhinhos bacantes uma coisa muito notável. E Penteu, que é o rei mais louco das tragédias que conheço, pois desfila pela cidade vestido de mulher para ser a principal vítima do transe dionisíaco. A cena da destruição do palácio é uma das mais comentadas pelos críticos, bem como a cena em que Ágave, mãe de Penteu, percebe, ou seja, reconhece sua desgraça. Como diz Eudoro de Sousa, o melhor meio de compreender a tragédia é enfrentar o texto. Naturalmente, por ser uma forma muito complexa, leituras de apoio são também necessárias e até indispensáveis. Creio que Eudoro quisera dizer que lendo o texto somos lançados neste universo de personagens, escolhas, oposições, afetos e gestos e somos compelidos, ao encontrar toda a sua beleza, a compreender um pouco deste mundo tão antigo e que continua capaz de nos lançar nos limites mais extremos da realização humana.
