PRELIMINARES DE UMA DISCUSSÃO

Iuri Pereira

Que a poesia possa abrir mão de ser lida e que o poema deva ignorar orgulhosamente o leitor são postulados falsos, mas isso na medida em que, anteriores a ele, é justamente o papel do poema preparar, dar à luz aquele que o deve ler, obrigá-lo a ser esse, a partir desse composto, ainda meio cego, meio balbuciante, que é o leitor engajado nas relações habituais ou formado pela leitura de outras obras poéticas.

Maurice Blanchot

A descrição do presente feita por aqueles que participam dos combates atuais será sempre incompleta, talvez falsa, de qualquer modo unilateral.

Maiakovski

O conjunto de idéias e proposições que ocasionaram e foram ocasionadas pelo modernismo brasileiro permanece atuando, repassado por questões surgidas ao correr dos anos, na poesia que se escreve atualmente no Brasil. A vanguarda concreta, o desbunde setentista, o rigorismo precário dos anos 1980 ou o museu de tudo posterior com seu retorno à discursividade mais ampla e uma nova encenação da subjetividade, partem de matrizes criativas que remontam, com acréscimos, ao modernismo1. Talvez pareça ocioso notar o que para muitos é óbvio, mas dizê-lo impede-nos de pronto de tentar descrever um programa poético emancipado das matrizes modernistas em outros momentos da poesia brasileira do século XX, como o concretismo ou a poesia marginal. A poesia contemporânea situa-se amplamente em diretrizes propugnadas pelo modernismo, como o abandono das formas fixas e a instituição do verso livre, a dessacralização do repertório temático, que passa a incluir a referência rasteira e cotidiana e os registros irônicos, satíricos e humorísticos, a busca de uma expressão literária capaz de assimilar a cor brasileira de nossa fala, que passa, por assim dizer, a ser ouvida pelos poetas. Pode-se pensar ainda em uma busca constante que almeja equiparar os recursos técnicos e discursivos da poesia brasileira ao nível de excelência daquela praticada nos principais centros de irradiação cultural. Hoje essa busca parece muito esvaziada, seja pela ausência de movimentos aglutinadores também nos países europeus e americanos, seja porque engolimos a idéia de um mundo em que as distâncias foram gradualmente atenuadas pela velocidade da comunicação, rapidez que não garante, entretanto, a imediata assimilação do que se escreve na Europa ou nas Américas. No que se refere à manutenção da informação poética em dia por meio da militância na polêmica, na tradução, no jornalismo literário e no ensaísmo estamos muito aquém daquilo que produziu a vanguarda concretista.

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A exposição afetiva no Lampadário de cristal, de Jerônimo Baía

Iuri Pereira

Intróito

Neste texto vou tratar da preponderância de figuras da evidência na exposição das guerras portuguesas da Restauração no poema Lampadário de cristal, de Jerônimo Baía, em comparação à exposição das mesmas guerras realizada pelo 3o conde de Castanheira, dom Luis de Meneses (1632-1690) em seu História de Portugal restaurado (impresso em duas partes em 1679 e 1698).

Lampadário de cristal

O Lampadário de cristal é um poema célebre da escola que a crítica convencionou chamar de gongórica. Portanto são poemas produzidos por emulação com a poesia de Gôngora (1561-1627), cujo sentido literal raramente se oferece na epiderme do texto, tornando sua leitura uma operação de exegese. O poema louva o casal real, o príncipe dom Pedro e sua esposa, a rainha dona Maria Francisca Isabel de Sabóia, tomando como motivo imediato um presente oferecido ao casal pelos duques de Sabóia, a saber, um lampadário, um lustre de cristal. O lampadário opera a passagem entre as partes do poema, funcionando como um amplo refrão versificatório e temático. O poema é composto de 1279 versos de seis e dez sílabas e 58 estrofes irregulares. É possível dividi-lo em quatro seções definidas por uma razoável regularidade no tratamento de certos temas — ou, melhor seria dizer, subtemas ­— de uma grande cena que é a monarquia portuguesa restaurada. A primeira seção é dedicada ao encarecimento do lampadário, a segunda do príncipe dom Pedro, a terceira do marquês de Marialva, como epítome do valor guerreiro lusitano e de seu sucesso na restauração do mando português, e a quarta à rainha dona Maria.

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